Uyuni

Roteiro - Bolivia e Norte do Chile -

Uyuni

Logo na manhã de 18 de janeiro compramos passagens para o ônibus do meio dia para Uyuni. Recomendaram-nos a empresa Diana, mas só conseguimos lugar num ônibus extra da El Emperador.

Passando pelo hotel, um grupo de argentinos que tinha chegado dois dias antes deixou escapar: "El Emperador? Ih!!! Viemos com ela e foi uma aventura!." Eles deram menos sorte. Viajaram à noite, com muita chuva e o ônibus derrapou, acabou encostando num barranco e trancando a única porta de saída. Os passageiros tiveram que saltar pela janela e se encharcaram todos enquanto esperavam por ajuda. Para nós, a viagem foi fantástica, em um dia com muito sol. Apenas 15 minutos de atraso, para acomodar as bagagens no teto e a lotação completa nos assentos, com muitos mochileiros europeus entre muitos índios e alguns brasileiros. Logo na partida, o motorista colocou música do altiplano boliviano e iniciou um dos percursos mais inesquecíveis da viagem.

A viagem Potosi/Uyuni


São 240 km entre Potosí e Uyuni, num descer dos 4.070 m aos 3.665 m, por estrada de terra, na encosta de quebradas íngremes e pedregosas. O ônibus, velho, mas com boa manutenção, manteve o curso numa velocidade baixa e sem sobressaltos nas curvas. Pouco mais de uma hora de viagem se alcança a localidade de Porco, onde teve início a mineração que mais tarde se direcionou para Potosí. Atualmente, uma mineradora privada dá continuidade à exploração de prata e estanho.

Perto dali, paramos na Pensión Las Playas, tomamos uma Potosina enquanto o motorista tomava sua "cazuela de ave" (sopa de legumes, verduras, e às vezes quínua, com um pedaço de carne; quando sem o pedaço de carne, se diz sopa, como aqui). Fora da pensão, um caminhão cheio de cargas também tinha espaço para transportar muita gente, que subia e se acomodava entre sacos e animais. Outro caminhão como esse passou por nós adiante, na estrada.

Continuando o percurso, logo se iniciou um retão interminável numa paisagem erma. Pontuando o horizonte da planície, alguns picos isolados. Menos de uma hora depois, outra vez mudou a paisagem e se retomou o sobe e desce por entre encostas de quebradas, agora se aproximando muito dos picos nevados. Em algumas curvas já se avistava ao longe uma imensidão plana e branca refletindo o sol já de final de tarde: o Salar de Uyuni.

Uyuni

Às 17:30 horas chegamos em Uyuni, na cabeceira do Salar, uma planta totalmente plana, com ruas ortogonais, casas pobres, e logo na entrada uma imagem que se repetiu sempre que se aproximava das áreas urbanas no deserto: pequenos sacos plásticos coloridos presos na vegetação rasteira, agitados pelo vento, mostrando o lado do descaso para com o lixo, contrapondo a urbs à natureza, e acentuando o ar de desolação das vilas dessas paragens.

Uyuni também conta uma história de prosperidade, no auge da exploração do salar. Hoje, tem mais o ar de um ponto de confluência de mochileiros. A estação de trem, bem construída e em pleno funcionamento, distribui os principais turistas nos dias e horários certos. Como corre a informação de que por trem é a única maneira de se chegar a Uyuni, são poucos os que vêm em ônibus, assim, o terminal fica distante da estação, mas junto ao mercado. De frente à estação, paralela aos trilhos, está a principal avenida da cidade, e perpendicular a ela, a rua de pedestres, cheia de restaurantes e bares, com mesinhas na calçada, postos de internet e agências de turismo.

E cheia também de turistas contando em todos os idiomas suas aventuras ou seus planos para o dia seguinte. Em meio a tudo isso, agentes e mais agentes oferecem serviços e pacotes. Logo encontramos um grupo de brasileiros que chegava de 4 dias embrenhados no Salar e por entre lagunas. Estavam esperando à noite, para partirem na direção de Oruro.

Mudança de planos

Até aí, nossas intenções eram fazer um percurso de um dia pelo Salar e prosseguir viagem para a fronteira com o Chile, via Ollague. Havia a pretensão de nos acercarmos ao máximo dos vulcões Ollague (5.870 m), Tocorpurí (5.833 m), e cruzada a fronteira em direção a Calama, dos vulcões San Pedro y San Pablo e Poruña, também com mais de 5 mil metros de altura. Nem cogitávamos o roteiro de 4 dias, pois não tínhamos abrigos para o frio que diziam fazer nos alojamentos, e também porque nos anteciparam preços muito elevados para esse percurso completo.

Mal nos alojamos (residencial Avenida, com apartamentos duplos ou alojamentos com banho compartido, e sem café da manhã, por U$ 4 ou 3), e já estávamos dispostos a arriscar um pacote de 3 dias, com destino a San Pedro de Atacama, no Chile. Era mais que possível e bem menos caro que supúnhamos. Ademais, os ônibus para Ollague saíam apenas 2 noites por semana, o que impediria curtirmos a visão diurna da paisagem e atrasaria um pouco a viagem. Negociamos um bom desconto, por estarmos em 5 (Juliet Tours, U$ 55, sem contar as entradas dos Parques, que somaram U$ 4,75), sacos de dormir, e fechamos uma 4X4, compartindo com um casal de israelitas.Logo que amanheceu, percorremos a cidade, visitamos a estação ferroviária, apanhamos o visto para poder entrar no Chile (até agora não entendemos por que pagar U$ 1,8 para deixar um país!, pois não é necessário pagar esta taxa, é uma pegadinha ao turista!!!) e demos um tempo na rua principal, observando começar o movimento.

Caravanas ao Salar

Ao lado de uma pequena torre com um relógio, um dos ícones da cidade, bem no fim do calçadão, na ponta oposta à estação, começaram a encostar as 4X4, enquanto os turistas ainda se espreguiçavam. Lá pelas 9 horas, os bares que oferecem café da manhã se tornaram cheios; mochilas e mais mochilas foram se amontoando em frente às agências de turismo; caixas de isopor, garrafas de água e um agito completo que só terminou passado das 11 horas, quando as últimas 4X4 deixaram a cidade. Parte delas retorna após um roteiro que inclui o Salar de Uyuni, as processadoras de sal, o mercado de artesanatos em sal, e seguem na direção do Hotel de Sal, em meio ao Salar (que funciona apenas como museu), e depois a Isla Pescado, com seus cactus de mais de mil anos, retornando a Uyuni, com visita ao cemitério de trens. Mas a grande maioria faz o percurso de 4 dias ou se dirige a San Pedro de Atacama, num total de 3 dias.

Qualquer das opções, seguramente vai garantir momentos inesquecíveis pela rara e inigualável beleza. Certamente o movimento da rua do agito de Uyuni repete o mesmo ciclo todos os dias: quando acalma o movimento de partida já está perto da hora da chegada, e se renovam os papos das tardes, o assédio dos agentes aos novatos, a procura da internet para mandar notícias...

Embora nossa passagem pela cidade, como acontece com quase todos, tenha sido muito rápida, duas imagens permanecem na memória: a primeira visão do Salar, ainda da estrada, ao som das canções do altiplano, e o imenso arco-íris que contornou o céu, nesse mesmo final de tarde.

Lembrete importante

É bom lembrar: por melhores que sejam os alojamentos com banho compartido, oferecendo até mesmo lençóis e cobertores, muitos controlam o horário do uso da ducha, e não dispõem papel higiênico nem toalhas de banho. Outra boa lembrança é que se come muito bem e barato na Bolívia se se escolhe o menu do dia: uma sopa de verduras e um segundo prato, com carne, batata, saladas, arroz, em alguns casos permitindo opções e oferecendo refresco ou gasosa e sobremesa, e num custo que pode variar entre U$ 0,75 e U$ 3.

Sobre trens e ônibus

Trens bons, cumprindo o horário, mas com poucos lugares disponíveis, particularmente nos vagões populares. * Partem de Oruro as terças e sextas às 15:30 horas, chegando em Uyuni às 22:20 horas (Expreso del Sur, por U$ 10 e U$ 6, conforme o vagão); e aos domingos e quartas às 19 horas, chegando às 2:20 da madrugada seguinte (Wara Wara del Sur, por U$ 8,5 e U$ 4). Esses trens percorrem, nesse trecho, 313,716 km e continuam por mais 286,4 km até Villazón (mais 7 ou 8 horas de viagem), na fronteira com a Argentina. * Partem de Uyuni para Oruro: Expreso del Sur, quartas e sábados à meia noite, chegando às 7 horas da manhã seguinte; e o Wara Wara del Sur, à 1:45 horas das terças e sextas, chegando às 9:10. De Uyuni para Calama os trens só operam à meia noite dos domingos e a tarifa é de U$ 11. A viagem leva perto de 20 horas pois são demorados os trâmites na fronteira, onde, inclusive, se muda de trem. Consultas sobre horários e tarifas: www.fca.com.bo/fca1/itinerarios_tarifas_1.htm

Há ônibus diários entre La Paz e Uyuni (Planasur, diário com transbordo, partindo de La Paz às 15:30 horas e nas terças e sextas, diretos, às 17:30), porém com maior freqüência a partir de Oruro e de Potosi. Entre Uyuni e Ollague/Calama/San Pedro de Atacama, os ônibus são nas terças e sextas, retornando nos domingos e quartas. Saem à noite e chegam a levar 24 horas de viagem. Se há muita água no Salar, os ônibus ficam retidos.

Notícias Relacionadas:

Quer contribuir com o Roteiros Andinos?

O Roteiros Andinos está aberto a contribuição de seus leitores. Clique para saber mais.

O site Roteiros Andinos é mantido pelo Portal AltaMontanha.com - Consulte nossa Política de Uso!