Potosi, Cerro Rico

Roteiro - Bolivia e Norte do Chile -

Potosi, Cerro Rico

Nos 335 km entre Oruro (a 3.706 m de altitude) e Potosí (4.070 m) a rodovia é totalmente pavimentada e em bom estado de conservação. Começa acompanhando um vale, paralela aos trilhos da ferrovia, passando por povoados dispersos, com pequenas casas marrons que se confundem com o chão e as suaves montanhas.

A partir de Challapata, a estrada faz uma curva e inicia uma interminável subida pelas encostas da Cordillera Oriental de Los Andes. Nessas terras montanhosas a agropecuária repete o desenho de cercados de pedra que protegem tanto o cultivo quanto o gado (ovelhas e llamas, mas estas só aparecem perto dos 4.000 m de altitude).

São curvas e mais curvas. A quase 1 hora de Potosí, a partir de Chullpa Khasa, aparecem inúmeros pontos referenciados como patrimônio cultural: o povoado, uma capela em salina, um caminho inca, a "puente del diablo", e os demais "pueblitos" que se sucedem, e que, se não o são, deveriam ser tombados, tal a graça e peculiaridade. Potosí, pelo acervo colonial mestiço, é considerada pela UNESCO Patrimônio da Humanidade, desde 1987. Junto com Lhaassa (Tibet) é a cidade de porte médio mais alta do mundo.

Chegamos em Potosí às 20:30 horas, sem nenhuma parada sequer durante o trajeto. Há hotéis e alojamentos junto ao terminal rodoviário, mas vale a pena se empenhar e buscar hospedagem na parte central da cidade.

Potosí é uma cidade histórica, com muitas igrejas e monastérios coloniais, museus, a casa da moeda, um casario com balcões salientes em madeira trabalhada, ruas estreitas e enladeiradas. Potosí recorda um passado rico em função de sua enorme reserva de prata (e estanho), em exploração desde o tempo dos espanhóis. O Cerro Rico (Sumaj Orcko), onde se concentra o minério e as minas, tanto coloniais quanto as em exploração, é um marco da cidade. Chegou a ter mais de 5 mil bocas de mina e galerias, muitas interconectadas. A mina Pilaviri (a 4.200 m de altitude) é a mina mais antiga de Potosí, em contínua exploração desde 1545; dela se extrai a prata e mais recentemente o estanho. Há um mirante nesse Cerro, que permite uma vista panorâmica da cidade, dando uma dimensão da riqueza arquitetônica das inúmeras igrejas e casario, da densidade de seu centro, da porção ocupada pelos trabalhadores das minas e de seus bairros mais novos.

Muitas agências de turismo oferecem visitas às minas de prata, por isso vale a pena negociar bem (custam entre U$ 25 e 40). Essa visita é recomendável não só pelo resgate da história da colonização e da exploração dos recursos naturais e dos povos sul-americanos, com expropriação dos bens e dizimação das populações e culturas originais (bastante avançadas), como pela possibilidade de adentrar minas em plena atividade, e com recursos de tecnologia similares aos do período colonial. O percurso da visita leva aproximadamente 1 hora, percorrendo túneis escavados no interior do Cerro Rico. Ali se conhece o processo de mineração, as condições de trabalho e também as lendas que se foram construindo ao longo do tempo, algumas impostas pelos espanhóis para acelerar a produtividade do trabalho, outras criadas pelos próprios mineiros, fundadas em suas crenças e devoção à "pachamama" (a deusa terra), que mantém fértil a presença dos minérios.

Uma das lendas criadas pelos espanhóis foi a colocação de estátuas do "diabo" no interior das minas. Isto se deu pelo fato de que como os espanhóis não podiam estar sempre na mina, eles precisavam amendrotar os nativos, fazendo com que eles trabalhassem sempre, e caso não o fizessem, estas figuras os matariam. No início estas estátuas eram feitas em prata, mas após inúmeros saques, restam apenas as de argila, como o caso do "El Tio", antiga estátua, onde os mineiros ainda se reúnem para fazer suas oferendas (folhas de coca e alcool puro, pois não se poderia beber algo não puro dentro da mina ou o minério também se tornaria impuro).

Chegar ao cume do Cerro Rico não é uma empreitada difícil, mas exige um mínimo de aclimatação, já que ultrapassa os 4.900 m de altitude. De lá, se vislumbra os arredores. Ao norte, a cidade; a leste, a cordilheira Kari Kari e suas famosas lagunas artificiais; ao sul, Tahuaco Nuñu (mamilos de donzela) e o caminho a Cinti, Tarija e para a Argentina; e a oeste, o vulcão do Nuevo Mundo.

Existem vans(4x4) que por 8 US/por pessoa levam os turistas até o cume deste cerro. Porém subi-lo a pé é muito mais interessante. O Caminho a se tomar pode ser o mesmo que as vans utilizariam, uma estrada que vai ziguezagueando a montanha até bem próximo do seu cume. Esta opção pode ser útil caso você não esteja aclimatado, do contrário ela se mostrará extremamente longa! Assim, enquanto subíamos pegávamos atalhos (íngremes porém economizam um bom tempo), os quais são utilizados pelos mineiros.

A subida deste morro é extremamente interessante, o caminho passa ao redor de inúmeras bocas de mina(ativadas e desativadas), casas de mineiros e, ainda, se pode encontrar belas plantas dos Andes (as quais têm muitos espinhos). O tempo para subida é estimado em quatro horas, porém subimos em 1:45, nos possibilitando ver um belíssimo pôr-do-sol, a descida foi iluminada pelas incontáveis luzes de Potosi. Deve-se tomar cuidado para não perder o último ônibus para o centro.

A memória colonial

Desde meados dos 1500, alavancada pela atividade minera, Potosí transformou num pólo econômico de interesse europeu um dos lugares mais desolados e altos das bordas da Cordilheira dos Andes, sem vias de comunicação e acesso, sem tradição de agricultura organizada a prover o necessário para a alimentação, em um mundo recém descoberto e hostil. Logo recebeu do imperador Carlos V um escudo de armas e o título de "Villa Imperial". Em 1630, Potosí atinge 160.000 habitantes, população superior à de Paris e Londres de então. Suas minas produziram para enriquecer a coroa e promover as artes, as construções e a expansão territorial. Desse passado, com forte apartação entre classes sociais, a cidade guarda um ar conservador e ao mesmo tempo decadente. Hoje, nas quadras cerca da praça se encontram a Catedral e um teatro (ambos atualmente em restauro), a Casa Real de la Moneda (cuja construção teve início em 1750) e outros prédios públicos, guardando essa memória.

É recomendada a visita ao Museo de la Casa Real de la Moneda, pelo acervo de moedas cunhadas no período imperial, suas máquinas antigas, uma exposição de pinturas coloniais e a própria arquitetura do lugar;Mas espalham-se pela cidade inúmeras construções religiosas, algumas tornadas museus, como o Museu Convento Santa Teresa, a Iglesia Jerusalém, a Compañia de Jesús (de cuja torre se tem um bonita vista da cidade), além do Convento de San Francisco (com altares em ouro e prata, e a bênção ao final da missa) e das igrejas Merced, San Bernardo e San Lorenzo, destacando-se entre as mais de 30 situadas na área central. Também já está começando a fazer parte de um passado histórico a estação de trens e a ferrovia, hoje destinadas apenas a cargueiros.Pouco além de Potosí, a ferrovia passa pelo ponto ferroviário mais elevado das américas: o "Paso del Condor".

Um centro movimentado

A Plaza 10 de Noviembre é a principal centralidade de Potosi. À noite, a iluminação da Catedral valoriza sua arquitetura; mas as luzes de mercúrio da praça ofuscam essa beleza. De dia, quando a cidade mostra um denso movimento - circulam pelas ruas estreitas, gente, muita gente, e todo tipo de veículo, numa lógica de trânsito onde, mais que a ordem, prevalece a calma e a paciência -, a praça é ponto de encontro de moradores, campesinos da vizinhança, ocupados e desocupados, engraxates e vendedores. É o palco das conversas políticas e das manifestações locais. Numa de suas esquinas está a sede do jornal El Potosí, e em seus bancos, centenas de bolivianos lêem as notícias do dia, chamando a atenção para o quanto esse hábito é arraigado no país (como também temos o hábito do jornal diário, muitas vezes, nos ônibus, praças, nos pediram emprestado nosso jornal, enquanto não líamos). No entorno da praça estão o comércio, as lanchonetes, restaurantes e, passando por sob arcos, um calçadão que é onde culmina o "point" noturno dos domingos (Sucre, entre Linares e Bolívar). Os restaurantes mais tradicionais são hostis a mochileiros (mesmo quando sem mochilas), arrumando mil desculpas para não atender. Mas há opções baratas e saborosas, como um vegetariano, que serve um suco de cactus inigualável, algumas casas de "salteñas", dentre as quais a de Doña Cica (na Linares, entre Padilla e Tarija) serve a melhor "Potosina" que existe - uma empanada de carne com batatinhas, um pouco picante e com muito caldo, precisando ser comida com colherinha. Após 2 dias na cidade, partimos para Uyuni. As agências de ônibus ficam próximas ao trilho do trem (ou após o paso del riél).

Onde ficar

Há muitas opções de hospedagem em Potosí. Escolhemos o residencial El Turista (Calle Lanza, 19, próximo à praça e à Igreja de San Francisco), que oferece banhos privados ou compartidos (entre U$ 5 e 3), sem incluir no preço o café da manhã. Dispõe de vários espaços de encontro entre viajantes da terra e forasteiros, que inevitavelmente remetem a Uyuni.

Mais sobre Potosí? Consulte:

www.potosibolivia.com
www.sudamerican.com
www.andeanjewels.com 

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